Carolina Maria de Jesus

Há dois anos atrás eu fundava o Ègbé FARAIMARÁ, uma alegria foi isso não? E desde então um coletivo de pessoas cheias de multiplicidades, têm se implicado nessa nova maneira de ler / compreender Ifá / Orisa a partir do mundo de hoje.

Sempre digo: de tempos em tempos nossos antepassados atualizavam nossas tradições a fim de que elas pudessem atender os sinais dos tempos. Tradição Viva é a tradição que se move, movente, andarilha, nômade, atenta aos sinais dos tempos e a realidade de mundo.

Fui o pioneiro no Brasil dentro do Culto Tradicional de Ifá e Orisa a levantar a voz contra a desfaçatez e a ignomínia da opressão, da subjugação e da discriminação à pessoas homo-afetivas, lésbicas, travestis e transexuais. Também fui pioneiro em resgatar o protagonismo sacerdotal da mulher dentro do Culto de Ifá. As mulheres Iyáláwós sao Bàbáláwós de Ifá. Este culto nos primórdios não era exclusividade de homens.

Quando muitos diziam que homossexuais, lésbicas, não podiam exercer o sacerdócio de Ifá, eu disse claramente que isso era resquício de uma sociedade colonialista, homofóbica, machista, fundamentalista e retrógrada. De igual maneira que mulher não podia consultar Ifá com opele e ikin. Se a mulher não pode tocar no Ifá não tem sentido nenhum cultuarmos Ifá.

Desde 2015 venho me levantando contra o colonialismo em nossas tradições e claro uma avalanche de inimigos se levantaram contra mim de todas as formas. Graça a Ifá, Esú, Sàngó, Osún e Edán, continuo falando.

O Ègbé Faraimará tem como proposta fundamental possibilitar uma iniciação do intelecto através do Lésé-Lésé Ifá. Os versos de Ifá são a melhor forma de capturar uma tradição que infelizmente perdeu muito da sua base.

Nossa criatividade e nossa inventividade é a melhor forma de seguir atualizando as tradições que nos legaram os nossos antepassados. Isso não quer dizer que devemos inventar / criar qualquer coisa. Mas sim, a partir daquilo que nos legaram os antigos, manter viva criativamente a beleza da Tradição.

Se alguém disser para você que isso ou aquilo é lei no Ifá e tem que ser como é na Nigéria ou como qualquer outro lugar não acredite, isso não é Ifá. Ifá não tem leis, não tem regras, Ifá tem princípios. Tenho dito.

A universalidade do Ifá está em tornar sua mensagem sempre atual e sempre singular. Ifá fala através de Odu – Èsé – Ìtàn diretamente com seu interlocutor. O mais importante no Ifá é que uma estória sempre atual seja capaz de acessar o âmago de uma pessoa e concede-la luminosidade diante da sua vida.

O Ègbé Faraimará existe para ensinar as pessoas essa captura. Ou seja, ensiná – las a capturar Ifá desde sua própria forma de falar que é sempre literária, contando estórias. As estórias são circulares, fluidas, cíclicas, não são versículos bíblicos, não estão estáticas e nem são intactas. Elas estão sempre em movimento, sem se ele-inventando para ajudar a vida na sua amplitude a avançar.

Neste ano de 2023 nosso Ègbé Faraimará tornou Universidade Popular de Ifá (UPI), a primeira Universidade Livre / Popular de Ifá do mundo. Toda virtual, interativa, espaço de produção e manutenção da Filosofia, da Literatura e dos Saberes de Ifá.

A universidade se baseia no princípio de taxas acessíveis, bolsas para grupos excludentes e acesso livre a qualquer pessoa interessada no Ifá / Orisa e nos saberes de tradição iorubá. O acesso à Universidade Popular de Ifá não exige qualquer qualificação acadêmica, e é aberta a todes. Não tem nenhum exame e nem conferência de diplomas. O fundador e apoiantes afirmam que a instituição está comprometida em fornecer o conhecimento de alto nível para as massas, em oposição à abordagem vulgarizante que tem tornado a literatura, a filosofia, as práticas e os saberes de Ifá algo distante das pessoas e apenas para alguns privilegiados.

As aulas da universidade acontecem por enquanto na modalidade virtual através do Zoom no anfiteatro-virtual Orúnmilá Bara Agbónirégún da Universidade Popular de Ifá.

Nosso projeto é espalhar a proposta da Universidade Popular de Ifá pelo mundo, abrir salas virtual e presencial com cursos diversos abordando os vários aspectos da Tradição de Ifá e Orisa.

Cursos oferecidos atualmente:

Capacitação e Formação em Odulogia
Capacitação e Formação em Erindilogun

Propostas de cursos para o segundo semestre de 2023

Arte Iorubá: antiga e contemporânea
Osún e Yemonja: as deusas do rio
Fluxo e Refluxo: cartografias da escravidão
Cantigas Iorubas
Ègbé Orún: meu duplo astral
Filosofia Iorubá

Para celebrar o segundo ano do Ègbé Faraimará nossa Universidade Popular de Ifa (UPI) lançou o Selo Faraimará que neste ano está homenageando a escritora Carolina Maria de Jesus. Homenagear Carolina Maria de Jesus é uma forma de manter nossos parâmetros e diretrizes bem consolidados. Isso porque a Universidade Popular se Ifá (UPI) se propõe dá lugar e acento de produção de conhecimentos ancestrais para o povo preto, pobre, da periferia e de todos os lugares. Acento este que consiste junto com os iniciados, os adeptos e os praticantes das várias vertentes das tradições iorubá no Brasil, fazer avançar, preservar e atualizar no mundo de hoje nossas práticas e saberes ancestrais de origem iorubá. Vamos que vamos, que Edán nos abençoe nessa empreitada.

Que Edán e Osún a dona da Universidade Popular de Ifá / Ègbé Faraimará possa nos abençoar sempre nessa empreitada.

Parabéns para a Universidade Popular de Ifá/ Ègbé Faraimará nestes dois anos de sua existência. Que a Terra (Onile Ogboduora) que tem o poder de tornar as coisas grandes, possa fazer do Ègbé Faraimará um farol em meio a tanta escuridão neste mundo tomado por desfaçatez, ignomínia, ignorância e maldade.

Epa Mole /!!!\
Oluwo Adèlóná Isólá

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“Quarto de Despejo” de Carolina Maria de Jesus – interpretação do Brasil e “literatura como missão”
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